quinta-feira, maio 17, 2007

Dragão

Essa doeu, viu? Dessa vez pegou de jeito. O que é estranho porque nos últimos tempos nada passava por minha pele, só me fazia cócegas e eu ria de toda a situação. Resisti aos golpes da tua raiva, às gotas corrosivas do teu desamor, às farpas de desatenção. Todo esse universo de negação que criastes para se defender de mim. E eu me tornei pele grossa e escamas, para me defender de ti.
Mas essa doeu. Pegou de mau jeito, entre uma escama e outra ou embaixo da asa, sei lá. Mas essa pequena agulha de não me arrancou um pedaço e me tirou sangue. Ai!
Fico pensando porque tanta defesa, tanta agressividade. Talvez, quando ainda fazíamos amor madrugada a dentro como se nunca fosse amanhecer, eu tenha te ferido com uma das minhas escamas que já nascia. Ou tenha te chamuscado soltando fogo enquanto ofegava de prazer.
Eu queria ser uma cantora itinerante para espalhar por aí a dor e o amor que ficaram dentro. Como não sou, eles vão murchando e ficando verdes dentro da minha caverna. A vida vai se decompondo em mofo e escuridão.
Por isso, sabe, sangrou um pouco, mas é bom. Esse sangue ainda me devolve minha metade humana.

Um comentário:

Lid disse...

Eu sei das farpas, das agulhadas, das infinitas idas ao inferno. Espero que um dia possamos compreender o que a vida quer com tudo isso, porque ate agora eu tambem nao sei. Espero um balsamo.