
Ela era de um povo nômade e, sim, ao contrário do que diziam os antropólogos, ainda andavam pela cidade, tocando e dançando para tirar o sustento. Não porque fosse só o que restava, mas porque preferiam desse jeito.
O pai tocava algo com cordas, o irmão, um instrumento de percussão e cantavam. Então ela vinha e dançava. Com um vestido longo e rodado, sempre encarnado, roxo ou negro, ela vinha e girava, girava. Fazia doces movimentos de braços, passos matreiros que nunca iam para onde pareciam levar. A flexibilidade da cintura lhe dava um encanto de matar. Começara bem moça, como a mãe, e dançaria até morrer, exatamente como ela.
Outro detalhe adorável era a rosa que sempre levava no decote - e que os brancos da cidade achavam que era algo folclórico ou que fazia parte da dança. Não era. O que nem os seus sabiam é que ela levava sempre uma flor ao peito para lembrar que tinha o coração marcado, cheio de cortes abertos que jamais cicatrizaram. Um dia, um moço moreno, de fala mansa e jeito de gato deixara nele os veios abertos de uma pata de tigre. Entre os brancos matreiros que a requestavam ou entre seus homens que a cobiçava por esposa, levava consigo a rosa e se lembrava que o máximo que podia dar era um sorriso de quem sente muito...