domingo, fevereiro 18, 2007

Pássaros

O outrora brilhante pássaro verde da Ingenuidade está preso numa gaiola imunda, em um lugar miserável e sombrio entre este mundo e o outro. Aquele que se alimentava dos pomos frescos da Juventude hoje vive de insetos rastejantes e dejetos de ratos e mais parece um papagaio feio, velho e doente.
Numa gaiola bem próxima, o pássaro azul da Confiança, agora praticamente negro. Fede e está relegado à mesma podridão de seu antigo parceiro. Ambos foram traídos de tantas tantas formas, que passaram a desconfiar um do outro. Viram na Terra toda a sordidez, toda a maldadade, toda a canalhice, toda a irresponsabilidade, toda forma de trair a Confiança e desonrar a Ingenuidade.
Hoje, cada um deles desconfia, discretamente, que foi traído por causa do outro -- se não fosse tanta a ingenuidade, a Confiança não cairia, se não fosse tanta a confiança, a Ingenuidade não seria apanhada. Ambos tem razão e ambos se equivocam.
Um pouco mais afastada fica a gaiola do pássaro do Perdão, que um dia ostentou um branco deslumbrante. Esse é mais quieto e não faz questão de aparecer. Tem vergonha do modo como foi capturado. Oferecendo o perdão a todos e por tudo, oferecendo o perdão até para o que não podia ser perdoado, um dia, se viu na situação de necessitar do perdão alheio. Contou com ele cegamente, era algo que não fizera por mal e não tivera maiores conseqüências. Mas o perdão lhe foi negado e a ave caiu. Tem uma vergonha profunda, acha que a culpa é dela por não ter perdoado ainda o suficiente. Dizer-lhe que o erro não foi seu não adiantará nada.
Hoje, o que elas tem em comum, apenas, é a certeza de que um certo pássaro rubro cairá. Tem quem o deseje, tem quem o lamente. Mas cairá.

3 comentários:

roberta disse...

Triste, triste, minha amiga. Muito bonito e triste...

Poisongirl disse...

A tristeza de constatar fatos recorrentes e até prevísiveis não pode nos cegar de notar a beleza de outro belo pássaro:a esperança.Sempre.

Lorena disse...

Me senti triste...
Saudades de vc, pessoa linda!